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Demência avançada na doença de Alzheimer: quando tarefas simples deixam de ser simples

  • Foto do escritor: neuro9
    neuro9
  • há 12 minutos
  • 7 min de leitura

Você diz: “Senta aqui.”


A pessoa permanece em pé.


Você repete, aponta para a cadeira, explica novamente. Ainda assim, ela parece não conseguir fazer aquilo que você está pedindo.


Na hora da refeição, usa apenas o garfo. Tenta cortar a carne com ele enquanto segura o alimento com a outra mão. Em outro momento, coloca a comida dentro do copo com água.


No banheiro, você diz: “Senta no vaso.” Ela não executa o comando. Ou consegue sentar, mas depois não entende quando você pede que se levante.


Para a família, essas situações podem ser difíceis de compreender. Afinal, a pessoa está ouvindo? Ela não entendeu? Esqueceu para que serve o objeto? Não sabe mais como fazer o movimento?


Nas fases avançadas da demência, a resposta pode envolver um pouco de tudo isso.


Conforme a doença de Alzheimer progride, as dificuldades deixam de envolver apenas a memória. Podem surgir alterações importantes na compreensão da linguagem, no reconhecimento de objetos, na capacidade de organizar uma sequência de ações e na execução de gestos que antes eram automáticos.


Por isso, nessa fase, não basta apenas repetir uma orientação ou explicar melhor.


O cuidado precisa mudar novamente.


Quando a pessoa ouve, mas não consegue fazer o que você pede


Nas fases iniciais da demência, uma pessoa pode esquecer uma informação recente, mas compreender perfeitamente uma orientação.


Na fase avançada, isso pode mudar.


Imagine uma orientação aparentemente simples:


“Levanta do sofá e vem almoçar.”


Para executar esse comando, o cérebro precisa compreender as palavras, manter a informação pelo tempo necessário, organizar a ação, iniciar o movimento, levantar e direcionar-se até o local correto.


Com a progressão da demência, diferentes partes desse processo podem estar comprometidas.


A pessoa pode não compreender completamente a frase. Pode compreender apenas uma parte dela. Pode entender o que está sendo solicitado, mas não conseguir organizar a sequência necessária para realizar a ação.


Por isso, repetir:


“Levanta.”


“Eu estou mandando levantar.”


“Vamos, levanta do sofá.”


nem sempre fará com que a pessoa consiga executar a tarefa.


Isso não significa necessariamente que ela esteja recusando ou sendo teimosa. Pode existir uma dificuldade cognitiva real para compreender ou executar o que está sendo solicitado.


Menos palavras podem ajudar mais


Conforme a linguagem fica comprometida, frases longas e com várias informações podem se tornar difíceis de compreender.


Em vez de dizer:


“Levanta do sofá, vai até o banheiro, baixa a calça e senta no vaso.”


é melhor oferecer uma orientação de cada vez.


“Vamos levantar.”


Espere.


Depois:


“Vamos ao banheiro.”


Espere novamente.


Então:


“Agora vamos sentar.”


Além das palavras, os gestos podem ajudar. Apontar para o local, demonstrar o movimento e posicionar-se de maneira que a pessoa consiga observar o que deve fazer pode ser mais eficaz do que continuar acrescentando explicações.


Outro ponto importante é o tempo.


A pessoa pode precisar de alguns segundos para processar uma orientação e iniciar uma resposta. Repetir imediatamente o comando, usando palavras diferentes a cada vez, pode aumentar ainda mais a confusão.


Na fase avançada da demência, comunicar melhor muitas vezes significa falar menos, mostrar mais e esperar um pouco mais.


Quando a pessoa parece não saber mais como usar um objeto


Comer com talheres parece uma atividade simples porque a maioria de nós a realiza automaticamente.


Mas pense em tudo o que está envolvido.


É preciso reconhecer o alimento, identificar os objetos sobre a mesa, compreender para que serve cada utensílio, segurar o garfo de maneira adequada, usar a faca com a outra mão, coordenar os movimentos, cortar o alimento e levá-lo até a boca.


Nas fases avançadas da demência, essa sequência pode se desorganizar.


A pessoa pode passar a usar apenas um dos talheres. Pode tentar cortar um alimento com o garfo. Pode segurar a comida com a mão enquanto tenta dividi-la com o talher. Pode misturar alimentos de maneiras incomuns ou colocar comida dentro do copo com líquido.


Novamente, corrigir repetidamente pode não resolver o problema.


Nesse momento, é mais útil perguntar:


Como podemos tornar essa tarefa mais simples?


A carne pode ser servida já cortada.


A mesa pode ter apenas os utensílios necessários para aquela refeição.


Pode ser mais fácil oferecer alimentos que possam ser consumidos com apenas um talher ou, em algumas situações, alimentos que possam ser levados à boca com as mãos, de forma segura e digna.


O objetivo não é exigir que a pessoa utilize os objetos exatamente como utilizava antes.


O objetivo é permitir que ela continue participando da refeição com a maior autonomia e segurança possíveis.


Banho, higiene e uso do banheiro: quando cada etapa precisa ser orientada


Atividades como tomar banho, escovar os dentes, trocar de roupa ou usar o banheiro são formadas por muitas pequenas etapas.


Para usar o banheiro, por exemplo, a pessoa precisa perceber a necessidade, encontrar o local adequado, reconhecer o vaso sanitário, organizar a retirada das roupas, posicionar o corpo, sentar, realizar a higiene e vestir-se novamente.


Quando há comprometimento cognitivo importante, essa sequência pode se perder.


A família pode dizer:


“Vai ao banheiro.”


E a pessoa não iniciar nenhuma ação.


Ou pode levá-la até o banheiro, mas ela não compreender o que deve fazer ali.


Em outras situações, a pessoa pode resistir quando alguém tenta retirar sua roupa. Para quem cuida, parece que ela está dificultando a ajuda. Para a pessoa, entretanto, pode existir dificuldade para compreender a situação e a intenção de quem está se aproximando.


Imagine não compreender completamente por que alguém está tentando tirar sua roupa. A reação pode ser de medo, defesa ou resistência.


Por isso, essas atividades precisam ser conduzidas com calma e previsibilidade.


Frases curtas, uma orientação por vez, demonstração dos gestos, ambiente tranquilo e respeito ao tempo de processamento podem ajudar.


Sempre que possível, a pessoa deve continuar realizando as partes da tarefa que ainda consegue fazer. Se consegue lavar o rosto, pentear os cabelos ou colocar uma peça de roupa com orientação, deve ser estimulada a participar.


Ajudar mais não significa necessariamente fazer tudo.


Quando a pessoa ainda fala, mas já não consegue explicar o que sente


Na fase avançada da demência, a dificuldade de linguagem pode comprometer não apenas a conversa, mas também a capacidade de comunicar necessidades básicas.


A pessoa pode sentir dor e não conseguir dizer onde dói.


Pode estar com fome, sede, frio ou calor e não conseguir explicar.


Pode estar com vontade de urinar, constipada ou desconfortável com uma roupa e manifestar isso por meio de inquietação ou irritabilidade.


Por isso, uma mudança de comportamento precisa ser observada com atenção.


Uma pessoa que começa a ficar agitada em determinado horário pode estar cansada ou sobrecarregada por estímulos.


Alguém que passa a resistir ao banho pode estar sentindo frio, medo ou dor durante a mobilização.


Uma pessoa que se recusa a sentar pode não ter compreendido o comando, mas também pode estar sentindo dor.


Nem todo comportamento tem uma causa simples, e nem sempre será possível identificar imediatamente o que está acontecendo. Mas uma pergunta pode mudar a forma de olhar para a situação:


O que essa pessoa pode estar tentando comunicar sem conseguir dizer em palavras?


O comportamento pode se tornar uma forma de comunicação


Quando a capacidade de falar e compreender diminui, a família precisa aprender a observar outros sinais.


Expressões faciais, postura corporal, movimentos de proteção, gemidos, mudanças no apetite, alterações do sono, inquietação e resistência aos cuidados podem fornecer pistas importantes.


Isso não significa que toda agitação tenha uma causa física ou que todo comportamento possa ser facilmente explicado.


Significa que, antes de concluir que a pessoa está simplesmente “difícil”, é importante investigar possibilidades.


Ela está com dor?


Está com fome ou sede?


Precisa ir ao banheiro?


Está cansada?


O ambiente está muito barulhento?


Há muitas pessoas falando ao mesmo tempo?


A rotina mudou?


Existe algum problema de saúde novo?


Mudanças súbitas de comportamento, atenção ou nível de consciência não devem ser automaticamente atribuídas à progressão da demência e merecem avaliação médica.


Simplificar o ambiente também faz parte do cuidado


Na fase avançada da demência, um ambiente com excesso de estímulos pode aumentar a confusão.


Durante uma refeição, por exemplo, uma mesa cheia de objetos, diferentes utensílios, embalagens e recipientes pode tornar a tarefa mais difícil.


Durante o banho, muitas orientações dadas ao mesmo tempo podem aumentar a resistência.


Ao se vestir, um armário com dezenas de possibilidades pode dificultar uma escolha que antes era simples.


Simplificar não significa empobrecer a vida da pessoa.


Significa retirar dificuldades desnecessárias.


Uma refeição pode ser apresentada de maneira mais simples.


As roupas podem ser organizadas na sequência em que serão vestidas.


Os objetos de uso frequente podem permanecer em locais previsíveis.


A rotina pode seguir horários relativamente regulares.


As orientações podem ser dadas uma de cada vez.


Pequenas adaptações podem reduzir conflitos e permitir que a pessoa continue participando do próprio cuidado.


Não é uma criança, mesmo quando precisa de ajuda para quase tudo


Alguns comportamentos de uma pessoa com demência avançada podem lembrar, externamente, habilidades que observamos em determinadas etapas do desenvolvimento infantil.


Ela pode precisar de ajuda para comer, vestir-se, usar o banheiro ou compreender uma orientação.


Mas existe uma diferença fundamental.


Uma criança está construindo habilidades e caminhando progressivamente em direção à autonomia. Uma pessoa com demência tem uma história de vida, uma identidade adulta, relações, preferências e experiências construídas ao longo de décadas.


Por isso, precisar de ajuda não significa que deva ser tratada como criança.


O tom de voz, as palavras utilizadas, a forma de tocar, a preservação da privacidade e o respeito durante os cuidados continuam sendo fundamentais.


Adaptar não é infantilizar.


Na fase avançada, o objetivo do cuidado também muda


Ao longo da progressão da demência, é natural que as prioridades do cuidado se transformem.


Na fase inicial, grande parte do esforço está em preservar autonomia, adaptar tarefas mais complexas e planejar o futuro.


Na fase intermediária, cresce a necessidade de supervisão, organização da rotina, adaptação da comunicação e manejo das alterações de comportamento.


Na fase avançada, conforto, segurança, dignidade, vínculo e qualidade de vida ganham ainda mais importância.


Isso não significa desistir da pessoa.


Significa compreender que insistir para que ela realize uma atividade exatamente como fazia antes pode gerar frustração para todos.


Talvez ela não consiga mais utilizar faca e garfo, mas ainda possa participar da refeição.


Talvez não consiga seguir a orientação “vá tomar banho”, mas consiga lavar o rosto quando recebe ajuda para iniciar a ação.


Talvez não consiga explicar o que sente em palavras, mas ainda responda a uma voz tranquila, a uma música conhecida, a um toque respeitoso ou à presença de alguém familiar.


O cuidado continua existindo. O que muda é a forma de oferecê-lo.


Quando a pessoa não consegue mais se adaptar, o ambiente e o cuidado precisam se adaptar a ela


Nas fases avançadas da demência, a família frequentemente se vê tentando fazer com que a pessoa compreenda, lembre, organize-se ou execute uma tarefa da forma como fazia antes.


Mas chega um momento em que pedir mais esforço não produz mais capacidade.


É o cuidado que precisa se transformar.


Frases mais curtas. Uma orientação por vez. Mais demonstração e menos explicação. Mais tempo para responder. Menos objetos e escolhas simultâneas. Mais observação dos sinais não verbais. Mais ajuda nas tarefas que se tornaram difíceis, sem retirar a participação naquilo que ainda é possível.


A pessoa pode não conseguir mais acompanhar o mundo da mesma forma que antes.


O cuidado, então, precisa aprender novas maneiras de se aproximar dela.


Porque, mesmo quando muitas habilidades se perdem, continuam existindo necessidades profundamente humanas: sentir segurança, conforto, respeito, vínculo e presença.

 
 
 

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